Quando Clara chegou, a chuva já tinha apagado os contornos dos prédios do outro lado da rua. Encontrou Miguel na cozinha, imóvel diante de duas panelas e de uma receita aberta no celular.
— Eu ia fazer aquele jantar — disse ele, olhando para o molho que claramente não tinha colaborado. Clara pousou a bolsa, provou uma gota com a ponta da colher e tentou não rir. Não conseguiu. Miguel riu também, primeiro sem vontade, depois como quem finalmente soltava o peso do dia.
O plano que deu errado
A reserva havia sido cancelada por causa da tempestade. Miguel quis salvar a noite reproduzindo em casa o prato do restaurante. Não encontrou dois ingredientes, queimou o alho e deixou cair metade do sal sobre a bancada.
Clara poderia ter aberto o aplicativo de entregas. Em vez disso, tirou da geladeira os ovos, um tomate e o pedaço de queijo que restava. — Vamos jantar o que a casa permitir — propôs.
Prepararam uma omelete torta, dividiram o último pão e levaram tudo para a pequena mesa perto da janela. Nenhum dos dois se lembrava da última vez em que tinham se sentado ali sem computador, contas ou uma lista de tarefas entre eles.
A pergunta esquecida
Por alguns minutos, observaram a água descendo pelo vidro. Miguel contou que vinha dormindo mal. Clara confessou que sentia saudade de conversar sem que cada frase precisasse resultar numa decisão.
— Em que momento ficamos tão ocupados? — ela perguntou. Miguel não soube responder. Estendeu a mão sobre a mesa e deixou que o silêncio fizesse o que as respostas não conseguiam.
Não resolveram naquela noite o trabalho atrasado, o orçamento apertado nem a viagem que continuava sem data. Combinaram apenas uma coisa: toda quarta-feira, jantariam naquela mesa, ainda que houvesse apenas pão, ovos e vinte minutos disponíveis.
Depois da chuva
A tempestade diminuiu antes da sobremesa, que foi uma maçã cortada ao meio. Miguel guardou o celular. Clara acendeu o pequeno abajur da sala. A cidade voltou a aparecer atrás da janela, brilhando molhada e imperfeita.
O jantar que quase não aconteceu terminou sem fotografia. Mesmo assim, semanas depois, quando alguém perguntava sobre uma noite especial, os dois pensavam na omelete torta, na chuva e na mesa que os ensinara a caber novamente na vida um do outro.
